Seminário “Por que ler…?”

O Grupo de Pesquisas Materialismos – Correlacionismo, Ontologia e Ciência na Filosofia Contemporânea, convida para o evento:

Seminário “Por que ler…?”

dia 2/12 – das 14 às 19h – auditório térreo do prédio 05

Se é importante para todas as disciplinas, o diálogo transdisciplinar parece ainda mais crucial para a filosofia, na medida em seu material de reflexão consiste, em grande parte, naquilo que se produz em diferentes áreas do conhecimento. A precondição para um tal debate é, contudo, que se admita que ele não apenas não pode ser unívoco (no sentido em que caberia ou à filosofia ou às ciências autocraticamente definir os termos da conversação), como não tem uma forma pré-definida. É da própria natureza do diálogo que ele esteja aberto à inovação e à pluralidade de perspectivas, se quer-se superar a imagem reificada que o positivismo oferece do conhecimento filosófico e científico.

O seminário “Por que ler…?” busca estabelecer um tal diálogo, apresentando pensadores de diferentes áreas do conhecimento que propuseram possíveis diálogos produtivos entre filosofia e ciências.

 Programa:

Por que ler Roy Bhaskar?

Charles Borges ( Mestrando, PUCRS)

Por que ler Gabriel Tarde?

Federico Testa (Mestrando, PUCRS)

Por que ler Francisco Varela?

Victor Ximenes Marques (Doutorando, PUCRS)

Por que ler Bernard Stiegler?

Moisés Pinto Neto (Doutorando, PUCRS)

Por que ler Gilbert Simondon?

Rodrigo Nunes (Pós-Doutorando, PUCRS)

Roy Bhaskar (1944) é o fundador e um dos principais expoentes do realismo critico, uma abordagem da filosofia e das ciências sociais que, em oposição ao positivismo e à filosofia hermenêutica, sustenta duas teses principais: a de que existe uma metodologia própria para investigar as sociedades das práticas humanas (ou seja, que é um erro importar o método “positivo” para as ciências humanas) e, por outro lado, a tese da autonomia e objetividade dos fenômenos sociológicos (ou seja, que as estruturas sociais, ainda que sejam constituídas por atividades interpretativas intersubjetivas, podem e devem ser analisadas através de um método que não reduplique a “interpretação”). Sua estratégia empregada por Bhaskar consiste em distinguir os domínios ontológico e epistemológico em que se aplica o conhecimento humano para, a partir daí, traçar a divisão entre o “intransitivo” (próprio das ciências naturais) e o “transitivo” (próprio das ciências sociais) e fixar uma metodologia específica para abordar os fenômenos sociológicos.

Gabriel Tarde (1843-1904) foi um dos mais célebres pensadores franceses do século XIX, estando na origem das ciências sociais nesse contexto. Investindo na associação produtiva entre filosofia e ciências sociais na formulação de hipóteses e conceitos, seu pensamento confere máxima importância a noções-chave como a de “diferença”, “variação universal” e “possessão”. Partindo da hipótese de que “existir é diferir”, Tarde encontra a diferença e a multiplicidade mesmo naquilo que era visto como mais ínfimo e homogêneo, levando à máxima potência a noção leibniziana do infinitesimal e do compósito. Substitui as entidades pelas relações, o que, no plano da ontologia, sinaliza-nos a proposta de substituição de uma “metafísica do ser” para uma do “haver”. Esquecido por muitos anos de forma aparentemente inexplicável, é recentemente, a partir de Milet, Deleuze e Guattari, Lazzarato, Latour e outros, que esse pensador do singular, da exceção, da repetição e da imitação volta a ser discutido, e esse pensamento da diferença volta pulsar em sua potência renovadora.

Bernard Stiegler (1952), filósofo francês em plena atividade, reequaciona temas como a ontologia dos sistemas técnicos, o déficit de origem do humano, a relação entre humano e a técnica e investiga a destruição gradual do espírito do capitalismo, a economia libidinal do consumerismo e a emergência da economia contributiva. Apoiado em autores como o Gilbert Simondon, Bertrand Gille, Leroi-Gourhan, Sigmund Freud, Jacques Derrida, Edmund Husserl, Martin Heidegger, Gilles Deleuze, Max Weber, Karl Marx e outros, Stiegler promove um debate realmente interdisciplinar que convoca a filosofia a um pensar complexo acerca da contemporaneidade.

Em 2011 completa-se 10 anos do precoce falecimento do biólogo chileno Francisco Varela (1946-2001). Ainda hoje o trabalho de Varela continua a exercer influência crescente nas pesquisas em teoria de sistemas autônomos, neurociências, ciências cognitivas, filosofia da mente, vida artificial e inteligência artificial. Mais conhecido por sua caracterização dos organismos vivos como sistemas autopoiéticos, desenvolvida em conjunto com Humberto Maturana, Varela foi também o pioneiro da abordagem enativa para compreender a cognição, como alternativa ao computacionalismo/representacionalismo ainda predominante. As ideias de Varela a respeito de emergência, circularidade e auto-referência abrem espaço para um naturalismo não-reducionista e oferecem um modelo para um diálogo frutífero, mutuamente enriquecedor, entre filosofia e ciência.

Gilbert Simondon (1924-1989) é, por excelência, o pensador da individuação – problema que, visto por ele a partir dos conhecimentos da biologia e da física contemporâneas, lança um desafio à tradição filosófica. Pensá-lo implica tornar o conhecimento dos indivíduos (como produto) uma região do pensamento de seu processo de produção, cujo objeto é o pré-individual, a fim de atentar à ontogênese em si mesma: ao invés de guiada por um princípio externo e tendente à identidade com o indivíduo formado e estável, a individuação aparece aí como processo permanente, múltiplo, de resolução de estados metastáveis. De onde a necessidade de substituir-se à noção de forma aquela de informação e de questionar a distinção entre interioridade e exterioridade; e, ainda, de reconsiderar a epistemologia e a fronteira que a separaria da ontologia – abrindo a questão de um devir histórico e transindividual do saber, e de uma primazia da relação indivíduo-meio que reinscreve o pensamento em um sistema dinâmico. Relegado por anos a uma relativa obscuridade, o desafio simondoniano foi redescoberto recentemente, por conta de sua influência sobre autores como Gilles Deleuze e Bernard Stiegler.

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2 respostas para Seminário “Por que ler…?”

  1. Hermano G L Nunes disse:

    Muito interessante este tipo de evento integrador.

    Espero que seja um sucesso.

    Abraço,
    Hermano.

  2. Pingback: CONVITE PARA EVENTO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA « O Ingovernável

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