Resumos das conferências / Keynote abstracts

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1) Eduardo Luft, Notas para uma estética do pensamento

Resumo: A intuição para estas notas veio durante um vôo cruzando o Atlântico, em meio à leitura da conferência “Iteration, Reiteration, Repetition: a Speculative Analysis of the Meaningless Sign”, de Quentin Meillassoux. Dei-me conta de que tenho me aproximado de uma teoria do pensamento pelo lado inverso do seguido por Meillassoux, quer dizer, explorando o espaço lógico evolutivo não a partir de seu segundo, mas de seu primeiro quadrante, nas cercanias do Mundo de Górgias. Não parto, portanto, de uma teoria do pensamento manifesto predominantemente na forma do conceito (ou do pensamento expresso em redes conceituais), mas de uma teoria do pensamento vertido predominantemente na forma da intuição (ou do pensamento expresso em metáforas, e mais fundo em imagens quase puras do pensamento).  Desse modo, à primeira vista, o meu percurso parece me afastar inteiramente do caminho percorrido por Meillassoux em seu ensaio. Todavia, quanto mais nos afastamos percorrendo estas diversas vias, mais nos aproximamos, pois o pensamento minimamente determinado, o pensamento em que se manifesta o predomínio máximo do Múltiplo sobre o Uno é justamente aquele pensamento que não contém mais nada de determinado a não ser a iteração da própria exigência de coerência. Conduzido a seus extremos, o Mundo de Górgias reverte no Mundo de Parmênides. Esta é uma explicação possível para a oscilação contínua presente no pensamento de Meillassoux entre a defesa de uma teoria da contingência radical, desdobrada nas proximidades do Mundo de Górgias, e uma teoria das estruturas formais quase puras do pensamento e do ser, próxima ao Mundo de Parmênides. Meillassoux parece não ter consciência de como estes dois mundos se fundem e revertem um no outro nas cercanias do Mundo de Cusanus”.

Eduardo Luft, Notes towards an aesthetics of thoughtThe intuition for these notes came during a flight across the Atlantics, while reading Quentin Meillassoux’s‘Iteration, Reiteration, Repetition: a speculative analysis of the meaningless sign’. I realised that I have been approaching a theory of thinking from the opposite direction of Meillassoux’s, exploring evolutionary logical space not from its second, but from its first quadrant, in the vicinity of what I call Gorgias’ World. Therefore, I don’t depart from a mostly conceptual form of thought (or of a thinking expressed in conceptual networks), but from a theory of thought mostly expressed in the form of intuition (or of a thought expressed in metaphors, and almost pure images of thinking more profoundly ). At first glance, therefore, my route seems to lead me in a totally different direction to Meillassoux’s in his essay. However, the farther we go down these separate roads, the closer we come, since minimally determinate thought, i.e., where a maximum predominance of the Multiple over the One obtains, is exactly that thought which doesn’t contain anything determinate apart from the iteration of its demand for coherence. Taken to its extremes, Gorgias’ World reverts into Parmenides’ World. This is one possible explanation for the continuous oscillation found in Meillassoux between the defense of a theory of radical contingency, next to Gorgias’ World, and a theory of almost pure formal structures of thought and being, next to Parmenides’ World. Meillassoux seems unaware of how both worlds merge and revert into one another in the vicinity of Cusanus’ World.

2) John Protevi, Uma Ontologia do Ritmo: Deleuze e Guattari e as ciências da sincronização

Resumo: No capítulo sobre o ritornello (ou refrão) em Mil Platôs, Deleuze e Guattari desenvolvem uma ontologia do ritmo na qual a inovação é ligada à “transcodificação”. Qualquer meio (i.e., qualquer coisa com fronteiras) tem um período de repetição ou “código” – suas batidas; portanto, quando meios se interseccionam, há transcodificação ou ritmo (sendo ritmo a relação entre batidasacentuadas e não-acentuadas, deve haver interação entre as batidas de cada meio para ter-se ritmo). Esses ritmos ocorrem em todos os registros espaciais e temporais, do atômico ao celular, organísmico, territorial, ecológico e “cósmico”.

No meu paper vou explorar um caso-limite do ritmo, a sincronização, no qual organismos coordenam seus ritmos para formar agenciamentos. Vamos examinar como o conceito de ritmo de Deleuze e Guattari nos ajuda a compreender estudos no desenvolvimento infantil (os ritmos da dupla criança-cuidador), na evolução da musicalidade e vários fenômenos políticos e militares, das trirremes do império ateniense até o “microfone humano” de Occupy Wall Street.

John Protevi, An ontology of rhythm: Deleuze and Guattari and the sciences of entrainment:In the Refrain chapter of A Thousand Plateaus Deleuze and Guattari develop an ontology of rhythm in which innovation is linked to “transcoding.” Any milieu (anything with a border) has a period of repetition or “code” – its beats; thus when milieus intersect, there is transcoding or rhythm (since rhythm is the relation of accented to unaccented beats, there must be interaction of milieu beats to have rhythm). These rhythms occur at all spatial and temporal registers, from the atomic to the cellular, organismic, territorial, ecological, and “cosmic.”

In my paper I will explore one limit case of rhythm, entrainment, in which organisms coordinate their rhythms to form assemblages. We’ll examine how Deleuze and Guattari’s notion of rhythm helps us understand studies in infant development (the rhythms of the infant-caretaker couple), evolution of musicality, and various military and political phenomena, from the triremes of the Athenian empire to Occupy Wall Street’s “human microphone.”

 

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3) Rodrigo Nunes, O que são ontologias pós-críticas?

Resumo: Nesse paper tento descrever o espaço no qual o retorno contemporâneo à especulação ontológica toma lugar a partir de uma indagação de suas condições implícitas. Ao invés de propor um novo projeto ao lado dos já existentes, procuro tornar claro de que modo esses projetos especulativos contemporâneos podem ser ditos especulativos sem recair na metafísica dogmática pré-crítica. Crucial para esse tarefa é tornar explícito o que está implicado no pluralismo de posições que testemunhamos hoje, em afirmações que são mais ou menos aceitas por todas elas (como o dictum baudiouniano de que a filosofia não produz verdades), e na questão sobre se essas proposições ontológicas dizem respeito ao que é conhecível ou pensável. Isso é feito na crença de que a especulação contemporânea é de fato possível, e é de fato pós-crítica, motivo pelo qual proponho chamar as posições que ocupam esse espaço de ontologias pós-críticas. Esse termo, entretanto, é ao mesmo tempo descritivo e visa a produzir aquilo que descreve: uma certa cautela auto-reflexiva em torno das condições de possibilidade para a especulação, que parece às vezes perdida numa certa denegação ou méconnaissance a respeito do que realmente fazemos hoje em dia quando fazemos ontologia, e que está especialmente ligada às discussões em torno do “correlacionismo”. Neste sentido, então, minha análise se coloca como alternativa à de Quentin Meillassoux. Trata-se de um argumento capaz de ser favorável tanto à especulação quanto a uma forma de correlacionismo (como um pré-requisito para a crítica), porque propõe que vejamos o correlacionismo que deixamos para trás não como um todo-poderoso outro, mas já uma forma – carente de auto-reflexividade e comprometida por uma falsa consciência – de especulação.

Rodrigo Nunes, What are post-critical ontologies?In this paper, I attempt to describe the space in which the contemporary return to ontological speculation takes place by grasping its implicit conditions. Rather than placing a new project alongside the already existing ones, I seek to clarify in what way these projects can be said to be speculative without regressing into pre-critical, dogmatic metaphysics. Crucial to this task is making explicit what is implied in the pluralism of positions that we witness today, in statements that are more or less accepted across the board by these (such as the Badiouian dictum according to which philosophy does not produce truths), and in the problem of whether ontological claims concern what is knowable or thinkable. This is done in the belief that contemporary speculation is indeed possible, and is indeed post-critical, hence why I propose to call the positions that fill this space by the name of post-critical ontologies. This term, however, is at once descriptive and aiming to produce what it describes: a certain self-reflexive awareness concerning the conditions of possibility for speculation that seems at times to be lost in favour of a certain disavowal or méconnaissance concerning what we are really doing today when we do ontology, and which is especially tied up with discussions concerning ‘correlationism’. In that sense, then, this aims to be an alternative account to Quentin Meillassoux’s. It is an argument that manages to be in favour of both speculation and a form of correlationism (as a pre-requisite for critique) because it proposes that we see the correlationism that we leave behind not as an all-powerful other but as already a form – lacking in self-reflexivity and mired in false consciousness – of speculation.

4) Norman Madarazs, Ainda não ontológico: sobre uma fenomenologia estruturalista

Resumo: Algumas das alegações por trás da assunção da virada ontológica na filosofia continental contemporânea referem-se à inovadora fenomenologia não-fundacionista desenvolvida por Alain Badiou em Lógicas de Mundos (2006). Nos termos da obra badiouana, contudo, Lógicas de Mundos representa uma transformação nas pretensões ontológicas feitas em Ser e Evento (1998, passando da determinação dos termos universais da verdade do acontecimento e sua realização na forma de sujeito, ao exame das estruturas específicas de objetivação pelas quais a verdade é encarnada, por assim dizer, em corpos. No curso da expansão do seu sistema, Badiou começa a reabilitar o uso da palavra “metafísica” em meio aos anos 90, e identifica seu pertencimento a essa designação, assim como Deleuze. Nesse paper, descrevo a passagem entre estes dois livros e questiono se é legítimo tratar este dois termos como sinônimos: metafísica e ontologia. Examino, em seguida, a questão de se a matemática dos conjuntos, em vez de singularidades ou formas primordiais, é um fundamento necessário para um pensamento que procura manter o Múltiplo livre do Um. Argumento que, se o mundo opera mais alinhado a uma fenomenologia das verdades corpóreas e linguísticas, por contraposição ao desafio de manter o múltiplo livre do Um, isso é irrelevante. Como tal, uma virada ontológica baseada em Lógicas de Mundos é no melhor dos casos uma fenomenologia, ainda que uma cuja fundamentação na matemática experimental de Alexander Grothendieck ainda permanecer filosoficamente inexplorada. No final, ela pode apontar para uma estrutura matemática, e não fenomenológica, subjacente aos pontos nos quais os corpos são construídos. Esta persepectiva, contudo, parece não estar contemplada com o escopo da corrente virada ontológica.

Norman Madarazs, Not yet ontological: on a structuralist phenomenologySome of the claims behind the espousal of an ontological turn in contemporary continental philosophy refer to the ground breaking phenomenology developed by Alain Badiou in Logics of Worlds (2006). In terms of Badiou’s works, however, Logics of Worlds represents a shift from the ontological claims made in Being and Event (1988), a shift from determining the universal terms of the truth of the event and its realization as a form of subject, toward examining the specific structures of objectification by which truths are incarnated, as it were, as bodies. In the course of his system’s expansion, Badiou began to rehabilitate the use of “metaphysics” toward the mid-1990s, according to which designator he identifies his belonging, as well as Deleuze’s. In this paper, I review the shift between these two books and question whether it is legitimate to conflate the two terms: metaphysics and ontology. Then I examine the question of whether a mathematics of sets, instead of singularities or primordial forms, is a necessary grounding for a thought seeking to maintain the multiple rid of the One. I argue that whether the world operates more in line with a phenomenology of linguistic and bodily truths, rather than with the ontological challenge of maintaining the multiple free from the One, is irrelevant. As such, an ontological turn based on Logics of Worlds is at best a phenomenology, although one whose ultimate grounding in experimental mathematics as developed by Alexander Grothendieck still remains philosophically unexplored. In the end, it may well point to a mathematical, instead of phenomenological, underpinning behind the points by which bodies are build. However, such a prospect does not seem to lie within the scope of the current ontological turn.

 

5) Markus Gabriel, O sentido da existência 

Resumo: No meu paper irei argumentar que a existência não pode ser uma propriedade própria (PP), sendo PP uma propriedade da referência que coloca alguém na posição de distinguir um objeto no mundo de outros objetos no mundo. A esse respeito, concordo com Kant e Frege. Contudo, um exame mais atento a suas concepções revisionárias de existência (suas ontologias revisionárias) revela uma profunda inconsistência. Kant é muito monista quando reduz existência à aparência em um campo oni-abrangente (o campo da experiência) e Frege permanece idealista demais quando reduz a existência à relação de cair sob um conceito, embora ele esteja certo em pluralizar a ideia básica de Kant. Ao longo dessas linhas vou esboçar alguns movimentos básicos da “ontologia do campos de sentido” que atualmente defendo, que define a “existência” como “aparição objetiva em um campo de sentido”.

Markus Gabriel, The Meaning of Existenc:In my paper, I will argue that existence cannot be a proper property (PP), a PP being a property reference to which puts one into a position to distinguish an object in the world from other objects in the world. In this respect, I agree with Kant and Frege. However, a closer look at their revisionary conceptions of existence (their revisionary ontologies) reveals a deep inconsistency. Kant is to monistic in that he reduces existence to appearance in an all-encompassing field (the field of possible experience) and Frege remains to idealistic in that he reduces existence to the relationship of falling under a concept, even though he is right in pluralizing the Kantian basic idea. Along those lines I will sketch some basic moves of the “ontology of fields of sense,” I currently defend, which defines “existence” as “objective appearance in a field of sense.”

 

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6) Benjamin Noys, Vida Selvagem e a Ontologia do Capital

Resumo: Alain Badiou, no seu Manifesto for Philosophy (1989), observa que a “virtude propriamente ontológica” do capital é ter nos libertado de qualquer crença no Uno (1999: 37). O que me interessa aqui, entretanto, é o que desejaria chamar de vícios ontológicos do capitalismo e como eles se impõem ao nosso pensamento. Por “vícios” refiro-me ao outro lado deste processo de dessacralização, notado por Marx no Capital (1867), na sua referência às sutilezas teológicas e delicadezas metafísicas geradas pela forma da mercadoria (Marx 2010). Sigo essa dinâmica teológica na articulação das contra-ontologias que apelam a uma “vida selvagem”. Embora essas ontologias sejam predicadas sobre um excesso sobre a captura capitalista, irei argumentar que elas encarnam um discurso de redencionista e reativo, um populismo biopolítico, e uma ética que produzem um mito da vida excessiva. Em contraste, considero a “vida selvagem” uma falsa apreensão da relação entre trabalho vivo e valor. Invocações dos poderes superiores da vida espelham a própria fantasia que o capital tem da vida como seu ponto externo capaz de gerar valor constantemente. A tendência a separar vida e capital não salva a vida do capital, mas replica a separação estrutural da produção e reprodução da qual o capital depende. Mais que seguir a vida desde a reprodução até a “morada oculta da produção”, os vitalismos da “vida selvagem” tomam a vida como esta força separada.

Benjamin Noys, Savage life and the ontology of capitalAlain Badiou, in his Manifesto for Philosophy (1989), remarks that the ‘properly ontological virtue’ of capital is to have delivered us from any belief in the One (1999: 37). What concerns me here, however, is what I’d like to call the ontological vices of capitalism and how they impinge upon our thinking. By ‘vices’ I want to refer to the flipside of this process of desacralization, which was noted by Marx, in Capital (1867), in his reference to the theological subtleties and metaphysical niceties generated by the commodity form (Marx 2010). I track this theological dynamic through the articulation of counter-ontologies of ‘savage life’. While such ontologies are predicated on an excess over capitalist capture I will argue that they incarnate a discourse of redemption, a reactive discourse, a biopolitical populism, and an ethics that generates a myth of excessive life. In contrast I consider ‘savage life’ as a misprision of the relation of living labour and value. Invocations of the superior ontological powers of life mirror capital’s own fantasy of life as exterior point that can constantly generate value. The tendency to split apart life and capital does not save life from capital, but replicates the structural separation of production and reproduction on which capital depends. Rather than tracking life from reproduction into the ‘hidden abode of production’, the vitalisms of ‘savage life’ take life as this separated force.

7) Steven Shaviro, Pensamento não-correlacionado

Resumo: Quentin Meillassoux define correlacionismo como “a ideia de acordo com a qual nós somente temos acesso à correlação entre pensamento e ser, e nunca a nenhum dos termos considerado separado do outro”. O que significaria sair desta correlação? Para a maioria dos realistas especulativos, o problema tem relação com o “pensamento” mesmo. Pensar é por definição intencional; é sempre “sobre” algo. Isso significa que o pensamento é intrinsecamente correlacional. Para sair do correlacionismo, então, é necessário conceber um mundo sem pensamento: que (como Meillassoux coloca) seja inteiramente “a-subjetivo” e que “toma a sério a possibilidade de que não há nada vivente ou desejante no reino inorgânico”. Ray Brassier, similarmente, vê o pensamento humano culminando na sua própria morte e dissolução. E Graham Harman encontra pensamento apenas quando entidades se relacionam uma com a outra, mas bane-o de objetos que permanecem “dormentes” e retirados. Meu esforço aqui é fazer uma abordagem radicalmente diferente e perguntar o que pode significar para o pensado ser não-intencional e não-correlacional: o que também significa que pode ser não-reflexivo, e provavelmente não-consciente. Pretendo descobrir um tipo de pensamento “autista” que não é correlativo ao ser, mas imanentemente intrínseco a ele.  

Steven Shaviro, Uncorrelated thought: Quentin Meillassoux defines correlationism as “the idea according to which we only ever have access to the correlation between thinking and being, and never to either term considered apart from the other.” What would it mean to step aside from this correlation? For most of the speculative realists, the problem has to do with “thought” itself. Thinking is by definition intentional; it is always ‘about’ something. This means that thought is intrinsically correlational. In order to get away from correlationism, therefore, it is necessary to conceive a world without thought: one that (as Meillassoux puts it) is entirely “a-subjective” and that “takes seriously the possibility that there is nothing living or willing in the inorganic realm.” Ray Brassier, similarly, sees human thought culminating in its own death and dissolution. And Graham Harman finds thought only when entities relate to one another, but banishes it from objects that remain withdrawn and “dormant.” My own effort here is to take a radically different approach, and to ask what it might mean for thought to be non-intentional and non-correlational: which also means that it would be nonreflexive, and probably nonconscious. I seek to discover a kind of “autistic” thought that is not correlative to being, but immanently intrinsic within it.

 

8) Eduardo Viveiros de Castro, A outra metafísica e a metafísica dos outros

Resumo: A virada ontológica na filosofia contemporânea ocorreu sincronicamente à popularização da palavra (de ordem) “ontologia” na antropologia sociocultural (ver por exemplo o debate ocorrido na Universidade de Manchester, em 2008, em torno do  título provocativo: “Ontology Is Just Another Word for Culture”). Tentarei aqui explorar algumas das causas e consequências desta sincronia. A questão do acesso (epistêmico) a uma dimensão (ontológica) de exterioridade radical, que mobiliza polemicamente o chamado Realismo Especulativo, encontra-se, no caso da antropologia, crucialmente sobredeterminada pelo fato de que o objeto visado como “exterior” ao pensamento (do observador) é, ele próprio, um outro pensamento, aquele do observado. O problema então que se levanta é o de saber onde se deve localizar a dimensão “ontológica”, considerando-se os dois “pensamentos” em confronto. Uma outra particularidade importante do recurso à ideia de ontologia por parte da antropologia diz respeito ao estatuto privilegiado de que a noção de relação goza na disciplina: seja no sentido de que as relações sociais são o objeto por excelência do estudo antropólogico, seja porque o conhecimento antropológico se constitui dentro da relação social (indissoluvelmente política e epistemológica) muito particular que se estabelece entre o “observador” e o “observado”, seja enfim porque os fenômenos humanos são, via de regra, concebidos como fundamentalmente semióticos, logo, relacionais. Acrescente-se a isso o fato de que as metafísicas indígenas (lato sensu) costumam ser caracterizadas, pelos antropólogos, como pressupondo uma “ontologia relacional” e uma imagem “vitalista” do real, o que implica problematicamente a teoria antropológica nos debates da metafisica contemporânea em torno do (cor)relacionalismo, do panpsiquismo, do materialismo e do antropocentrismo.

Eduardo Viveiros de Castro, The other metaphysics and the metaphysics of othersThe ontological turn in contemporary philosophy occurred synchronically to the popularisation of the (watch) word ‘ontology’ in sociocultural anthropology (see, for example, the debate that took place at Manchester University in 2008, with the provocative title ‘Ontology is just another word for culture’). I will attempt to explore some of the causes and consequences of this synchrony. The question of the (epistemic) access to an (ontological) dimension of radical exteriority, which polemically mobilises so-called Speculative Realism, is, in the case of anthropology, crucially overdetermined by the fact that the object ‘exterior’ to (the observer’s) thought is itself another thought. The question that arises is t o know where the ‘ontological’ dimension must be localised, considering both thoughts in confrontation. Another important particularity of the appeal to the idea of ontology by anthropology is related to the privileged status which the notion of relation has in the discipline: firstly, in the sense that social relations are the object par excellence of anthropological studies; secondly, because anthropological knowledge constitutes itself inside a very particular social relation (indissolubly epistemological and political) between ‘observer’ and ‘observed’; and finally because human phenomena are normally conceived as semiotic, therefore, relational. This is further complexified by the fact that indigenous metaphysics (in the broad sense) are usually characterised by antropologists as presupposing a ‘relational ontology’ and a ‘vitalist image’ of the real, which implicates anthropological theory problematically in contemporary metaphysical debates on correlationism, panpsychism, materialism and anthropocentrism.

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